quarta-feira, 9 de julho de 2008

Pirilampo Trágico

Os Portadores de Lâmpadas de Maxfield Parrish

Dei em matutar o quanto me irrita a história do Cínico de lanterna na mão à procura de um homem. Nem tanto por ele só ter enveredado pelo desafio e pelos andrajos depois de falido como banqueiro, em Sinope. Mas porque Diógenes empunhando a luz não fazia mais do que nos nossos dias aqueles populares espertalhaços que se acotovelam para responderem ao reporter televisivo que inquire a multidão. Com efeito, não precisava dela em pleno dia; e acreditar que o que fosse digno do nome que dizia buscar não brilharia por si, antes precisaria de foco luminoso para se destacar, era pálido como idealização. Tanta prosápia na demanda, partindo do princípio da superioridade de ser o único a sentir-lhe a necessidade, confessava não ter encontrado o que pretendia quando se mirava no espelho, ou no que as vezes lhe fizesse. E talvez fosse essa a medida maior do seu drama, reduzindo o sarcasmo iluminado à grosseria de saltimbanco.

10 comentários:

ana v. disse...

"acreditar que o que fosse digno do nome que dizia buscar não brilharia por si, antes precisaria de foco luminoso para se destacar, era pálido como idealização".

Inteiramente de acordo. Uma busca um tanto narcísica, afinal.

José Carlos disse...

Genial, meu Caro, genial
Um abraço

Cristina Ribeiro disse...

Muito bem apanhada, sim senhor; então essa da obscura imagem espelhada...
A ideia de que quem tem brilho próprio não precisa de iluminação artificial, remeteu-me logo para a questão das malfadadas quotas.
Beijo

O Réprobo disse...

Querida Ana,
e inglória, pos que não se encontrou como objecto dessa procura para que desdenhosamente se acha mais qualificado.
Beijinho

O Réprobo disse...

Muitíssimo obrigado, Meu Caro José Carlos.
Grande abraço

O Réprobo disse...

As quotas, Cristina, são tanto mais aproximáveis porque fazem do artificialismo de prospecções o ensejo para os brandidores publicitados dessas candeias brilharem, já que por outras vias...
Beijo

nonas disse...

Caro Réprobo,
esta dissertação sobre o iluminismo é extraordinária!

O Réprobo disse...

Pois, caro Nonas, quanto a indignas Luzes, em matéria de séculos, cumpre dizer "afinal havia outros".
Abraço

Vítor Ramalho disse...

Caro Réprobo,
esta dissertação sobre o ilujanesismo é extraordinária!

O Réprobo disse...

Caro Vítor Ramalho,
falta-me a noção do que seja esse ismo, mas a reflexão não visava qualquer que fosse, nem o Cinismo Antigo. Era apenas a minha ideia de que a figura de Diógenes anda muito sobrevalorizada.
Abraço